Consultorias da FGV: Mudam os nomes dos cargos, vão-se os encargos

“nunca, na história da humanidade, houve condições técnicas e científicas tão adequadas a construir um mundo da dignidade humana. Apenas, essas condições foram expropriadas por um punhado de empresas que decidiram construir um mundo perverso. Cabe a nós fazer dessas condições materiais a condição material da produção de uma outra política.” Milton Santos, trecho extraído do documentário Mundo Global Visto do Lado de Cá de Silvio Tendler

O capitalismo parece entrar em um novo modo de atuação.

Com a velocidade dos tempos atuais, as coisas mudam muito rapidamente. Isso não é diferente com o mercado de trabalho. Modismos comerciais vêm e vão, empresas se abrem e fecham; muitas vezes, negócios e ideias rentáveis têm prazo de validade bem curtos…

Neste contexto, surge um novo tipo de profissional: o consultor

A grande vantagem (pessoal) para este profissional é não ter vínculos com nenhuma empresa, organização, etc… Transita entre várias, de diversos ramos, com modelos de “gestão” que vão sendo aplicados com algumas poucas “customizações” e vão buscando, geralmente (pois são contratados para isso…), produzir mais (lucro) com menos (gente, custos, etc…).

Assim, sem vínculos, surfam na onda do efêmero e ficam livres para partir para outra, tão logo o mar leve as ondas para outra praia, ou qualquer tormenta surja no horizonte.

O faro para estas mudanças no modelo de negócio somados a métodos, às vezes legais outras não – porém quase sempre imorais (antissociais) – na aquisição de ideias, o uso de seu poder econômico para suas aquisições, entre outras coisas, ajudam muitas grandes corporações a se manterem sempre na ponta, mas isso não tem sido regra e, sim, exceção.

 O filósofo Zizec tem um ótimo texto analisando as revoltas árabes, europeias e americanas sob este ponto de vista. Para ler, clique aqui

Há bens que vêm para o mal

A entrada da chamada classe C que, com seu aumento de renda, seu maior acesso a universidades, etc… chega ao mercado mais bem preparada do que chegaria há pouco tempo tem um peso muito grande neste novo rumo que a atuação capitalista vem adotando, já que sua entrada no mercado depende de terem que se submeter a ganhar menos do que os profissionais já empregados há mais tempos nas funções.

Soma-se também a este e outros fatores, o (já mais do que conhecido) “aperfeiçoamento das tecnologias” que, em muitos casos, automatizam quase que totalmente a produção e reduzem a necessidade de mão de obra ou de uma tão qualificada.

Tudo isso abre terreno para um processo de precarização muito grande no mercado de trabalho, e, esse panorama é um prato cheio para os trabalhos de consultorias.

A FGV investe… na precarização do trabalho

No Brasil, uma instituição que forma este tipo de profissional e vende estas consultorias é a FGV (Fundação Getúlio Vargas). Trato mais especificamente dela, por se tratar, talvez, do maior expoente no ramo e pela ironia de seu nome (Getúlio Vargas), porém há muitas outras.

Com um nome destes, a FGV não teria como escapar de atuar fortemente no mercado de trabalho.

A FGV se adapta muito bem a esse modelo de negócio atual. Inclusive, na medida em que além de aplicar seus cursos, “empresta” seu nome a terceiros, atuando como uma espécie de “grife”, para que estes também o apliquem.

Suas consultorias utilizam-se, em alguns casos, de brechas jurídicas para precarizar o trabalho. Brechas jurídicas estas, que, muitas vezes, servem para contornar exigências da CLT, promulgada (por ironia do destino?) por Getúlio Vargas.

Trocando os nomes dos bois

Profissões tradicionais, com sindicatos estabelecidos, leis consolidadas passam a ter nomes genéricos para escapar de tudo isso.

Nomes como “Analistas” passam a substituir várias outras profissões já consolidadas e com direitos adquiridos.

Estes analistas ganham níveis pelos quais têm que passar: analista 1, analista 2, analista 3, etc… Se há necessidade de impressionar as pessoas, estas mesmas graduações ganham nomes mais atraentes: analistas 7, 8 e 9. Analista junior, pleno e senior; analista super mega baster e daí por diante… depende da auto estima dos funcionários.

Professores passam a ser contratados como instrutores. Com esta simples mudança de nomenclatura perdem seu regime de férias e recesso, perdem todo o amparo da legislação, seus direitos a Horas/Atividades e outros instrumentos que garantem uma melhor formulação de seu trabalho e daí por diante.

Estes são apenas alguns exemplos de como algumas consultorias agem.

Tudo vira fonte de renda

Outra fonte de renda da FGV, obtida indiretamente em suas consultorias, é criar “planos de carreiras” para os “analistas” das empresas que valorizem exatamente os cursos que a FGV aplica.

Por exemplo, para ser promovido em seu trabalho, um “analista” que tenha mestrado, recebe o mesmo peso de um que faz MBA, curso, não coincidentemente, oferecido pela própria FGV.

Enfim, para aqueles que acreditam que as ações do Presidente Getúlio Vargas foram uma manobra para conter um avanço do proletariado o qual poderia de fato transformar o Brasil em uma nação proletária, a FGV continua seu legado precarizador porém com roupagem mais moderna; para aqueles que veem em Getulio Vargas o pai dos trabalhadores, a FGV está jogando seu nome na lama.

“… nunca, na história da humanidade, houve condições técnicas e científicas tão adequadas a construir um mundo da dignidade humana”

Caminhando para o fim deste texto (motivado por uma ótima leitura crítica que recebi dele) esclareço que não se trata de demonizar a prática da consultoria ou, muito menos, os consultores. Há gente e organizações sérias fazendo coisas muito boas por aí.

Trata-se de refletir sobre qual a utilidade de tanto estudo e tantas ótimas cabeças pensantes, em algumas grandes e conceituadas instituições, voltadas para um fim tão antissocial na maioria dos casos. O mesmo raciocínio se aplica para a falta de responsabilização às tecnologias, ou melhor, aos que, na maior parte das vezes, financiam seu avanço… Que fins estamos dando a tantos enormes avanços tecnológicos que temos alcançado ou a nossa capacidade de avançar?

A mim, parece difícil não cairmos no argumento sobre nosso sistema capialista e sua prioridade para o lucro e o individualismo em detrimento do bem estar humano coletivo.

Não sei se é conselho bom, mas é de graça

Se a FGV for fazer uma consultoria em sua empresa, dependendo de seu cargo e tempo de empresa, prepare seu currículo! Quem sabe você consiga um outro emprego fazendo a mesma coisa que no seu atual, porém com um nome de analista, ganhando bem menos, em alguma outra empresa que a FGV já precarizou.

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A culpa é da pessoa física

Este texto é motivado por duas provocações recentes feitas a mim e que, infelizmente, são corriqueiras para milhões de outros cidadãos.  Trata-se de um desabafo com “pitadas” de crônica.

Já vou direto ao meu argumento, em seguida, dou dois exemplos para ilustrá-lo.

Discordo completamente do discurso de que as ideologias morreram. Essa é uma conversa bem ideológica, por sinal…

Para mim, o individualismo é a maior das ideologias nos dias atuais, responsável por nosso egoísmo, por um mundo competitivo em que nossos “próximos” se tornam obstáculos para nosso “vencimento individual” e não fontes de compartilhamento, de aprendizado, etc, etc,etc………………..

Mas não é só aí que o individualismo nos pega. Ao nos prometer o “sucesso” individual, ele também nos culpa, individualmente, por “problemas”, e… os dois casos são absolutamente mentirosos.

Em suma, muitas vezes, nossa “crença” no individualismo permite que nos atribuam méritos que não são individuais, como também permite que nos atribuam culpas que também não são individuais.

Essa transferência de culpa nos faz pessoas menos críticas, que enxergam menos as razões reais de nossos problemas, chateações, e por aí vai…

Dito isto, se o leitor não desistiu de ler o texto, vamos aos exemplos:

O primeiro que quero relatar aconteceu em um evento sobre tecnologia  e sustentabilidade chamado WECTI, promovido e muito bem organizado pela UNICID e parceiros.

No primeiro dia deste evento, acompanhei uma palestra de um funcionário da CETESB falando sobre a política de resíduos sólidos da empresa. Não citarei o nome nem o cargo da pessoa, para não cair no erro que estou criticando aqui neste texto: culpar pessoas físicas por erros propositais de pessoas jurídicas.

Em sua fala, o funcionário explicava como a empresa vai se adaptar à lei de resíduos sólidos e o que a empresa faz para tentar ajudar o meio ambiente, diminuir os impactos da presença do homem na natureza, etc…

A todo o momento, os argumentos falavam em conscientizar o cidadão e, normalmente, expressões em tons pejorativos eram ditais, tais como “precisamos colocar na cabeça do sujeito” tal coisa;  “precisamos convencer fulano” daquilo…

Ora, pensei eu, minha mãe e todos os irmãos dela nasceram às margens do Rio Tietê. Há 50 anos atrás, meus tios nadavam no rio.

Com o passar dos anos, inúmeras fábricas passaram a habitar, não por acaso, as margens do rio.

Por mais que os moradores das margens do rio não tivessem consciência ambiental, acho pouco provável que a conversão do Rio Tietê de rio vivo para rio de de água “praticamente sólida”, em menos de meio século, tenha se dado pelas práticas de pessoas físicas…

Até porque, se as casas das pessoas não têm esgotos, saneamento, a culpa não é delas e, sim, dos órgão públicos. Toda aquela sujeira do Tietê não pode ser causada por pessoas passando nas margens do Rio e jogando coisas nele, ainda que, isso não deva ser feito.

Diante deste raciocínio, me pergunto o que a CETESB está fazendo em relação a saneamento básico e na fiscalização de indústrias, etc…

Em tempo: vi em um telejornal que o Governo do Estado estima que só em 2018, a grande São Paulo terá 100% de esgoto tratado antes de ser despejado nos rios. Por que já não tem isso hoje?

Antes de concordar ou discordar comigo, leitor, Deixe-me contar um segundo caso.

Chego de viagem e pego o metrô na estação Tietê. Sigo até a Luz, desço e caminho até o trem da CPTM. Quem conhece a estação Luz, sabe que a caminhada entre metrô e trem não é pequena, ainda mais com malas de viagem e cansado dela.

Ao chegar ao trem, uma placa diz que ele não está circulando entre Luz e Barra Funda devido a obras de melhoria no sistema. Isso já poderia ter sido avisado dentro do metrô, assim eu não teria que descer dele e caminhar tudo que caminhei em vão.

Volto para o metrô, vou até a Sé, para ir até a Barra Funda e pegar o trem lá.

Chegando à Barra Funda, fico uns 30 minutos na plataforma da CPTM e nada de trem. A plataforma está cheia, apesar de ser domingo.

Depois de uns 10 minutos, vem o trem e… de onde ele vem? Da Estação da Luz.

De lá, onde eu estava e fui informado de que o trem não seguiria para a Barra Funda.

Intuindo que aquele trem seria o único em muito tempo, todos os que estão na plataforma fazem um esforço desumano para entrar no trem. O empurra-empurra é sinal de desespero de quem conhece as condições precárias do transporte público.

A porta tenta se fechar antes que todos tenham conseguido entrar. A porta é barrada pelos usuários até que todos estejam no trem.

Ao fechar a porta, o trem sai e a mensagem no auto-falante diz: “não impeçam o fechamento da porta do trem, evitem atrasos

Fácil não?

Há dois modos comuns de as pessoas absorverem essa transferência de culpa.

De um lado ficam aquelas pessoas que batalham para se materem dignamente, manterem suas famílias, educar seus filhos, se educarem e que passam a sentirem, também, o peso de se acharem poluidoras do meio ambiente e destruidoras do transporte público; de outro, aqueles que vestiram a carapuça do super herói que venceu na vida sozinho e que vê nas outras pessoas um obstáculo, um atraso de sua vida, atribuindo a elas os desastres ambientais e a crise no transporte público…

Para mim, insisto, a culpa não é da Pessoa Física e as ideologias não morreram.

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Clarice Lispector em todos os “sentidos”, em todas as direções

No dia em que Clarice faria 91 anos, um pequeno fragmento da genialidade da autora:

Não te amo mais.
Estarei mentindo dizendo que
Ainda te quero como sempre quis.
Tenho certeza que
Nada foi em vão.
Sinto dentro de mim que
Você não significa nada.
Não poderia dizer jamais que
Alimento um grande amor.
Sinto cada vez mais que
Já te esqueci!
Jamais usarei a frase
EU TE AMO!
Sinto, mas tenho que dizer a verdade:
É tarde demais …

Agora leia de trás para frente.

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MPB: Música “Poética” Brasileira

Artigo que publiquei no extinto site SigaMPost falando sobre a nossa MPB e a sua relação com a literatura:

Ouvi em algum lugar que o povo brasileiro não lê poesia, mas ouve muita poesia. Consultando a internet para descobrir de quem é a frase não encontrei o autor. Caso venha a encontrar, atualizo este texto.

Independentemente de quem seja o autor, mais importante é notar que se dermos uma rápida passada pela nossa MPB a sentença é comprovada.

Tivemos uma geração de músicas “literatas” principalmente na década de 70.

Drummond foi musicado por Milton Nascimento em Canção Amiga; Fagner musicou Florbela Espanca, Cecília Meireles, Garcia Lorca, entre tantos outros; Caetano musicou a Triste Bahia de Gregório de Matos; os revolucionários Secos & Molhados musicaram Fernando Pessoa, Oswald de Andrade, Vinícius de Moraes e por aí vai… poderíamos citar uma infinidade de casos.

É certo que durante os tempos antigos, a poesia e a música foram praticamente indissociáveis, o que transforma a combinação em algo belo, porém longe de ser inédito. A métrica do verso e a sonoridade eram de fundamental importância para sua memorização e transmissão de seu conteúdo.

A evolução das formas de transmissão escrita como a confecção de livros, a imprensa e outros parecem ter sido os responsáveis pela gradual e progressiva separação entre essas duas formas de arte dando-lhes autonomia em relação uma a outra.

Mas nada inibiu a riqueza desta união que continuou acontecendo e passou a contar com novas possibilidades de encontro entre as duas formas de arte.

Entre elas, os casos em que as letras das músicas conversam com grandes poesias, com textos em prosa e até com personagens da literatura, ou seja, a poesia e as outras formas de texto literário não são musicados diretamente, ocorre uma inter-relação entre as artes.

Nesse quesito, Chico Buarque parece ser o grande especialista. Em sua obra, encontramos a “Beatriz” da Divina Comédia, o Miguilim de Guimarães Rosa, o operário em construção do poema de Vinícius de Moraes e referências a poemas de Fernando Pessoa, entre tantos outros.

Na verdade é difícil pensar em uma característica, em uma qualidade de composição pela qual Chico Buarque não desfila seja nas mais sofisticadas pistas, seja nas mais altas galerias da MPB.

Mas ele não é o único. Nossa música assumiu uma “literariedade” que poucas no mundo têm. Belchior em sua canção Velha Roupa Colorida nos dá um exemplo da “miscigenação” de nossa música. Junta em poucos versos o poeta americano Edgar Allan Poe (referência direta ao poema O Corvo – Raven em inglês), Beatles e Luiz Gonzaga, mostrando a amplitude de suas influências. Vejam:

Como Poe, poeta louco americano,
Eu pergunto ao passarinho: “Blackbird, o que se faz?”
“Raven never raven never raven”
Blackbird me responde
Tudo já ficou pra trás
“Raven never raven never raven”
Assum-preto me responde
O passado nunca mais

Aliás, Assum Preto cantado lindamente por Luiz Gonzaga e citado por Belchior merece uma menção pela riqueza poética. Uma poesia tão linda quanto triste, que, se não tem influência de algum grande texto literário, tornou-se um certamente.

Conta-se que certa vez Tom Jobim pediu umas letras de música ao poeta Carlos Drummond de Andrade e este lhe disse que o maestro soberano não precisava de ninguém para lhe escrever as letras, que ele mesmo as fazia muito bem.

Acredito que o poeta estava certo. Nosso amor pela música fez o poeta Vinícius virar um letrista e fez com que potenciais poetas como Paulo Cesar Pinheiro, Aldir Blanc, Victor Martins, Fernando Brant, Márcio Borges e tantos outros se notabilizassem pelas letras de canções, além de fazer também com que hoje fique difícil distinguir ou marcar uma fronteira certa entre o que é poesia e o que é letra de música, se é que há diferença.

Privilégio dos ouvintes que têm à sua disposição um repertório vasto que vai da erudição literária de Chico Buarque, Gilberto Gil entre tantos outros à erudição de Dorival Caymmi e dos intérpretes Pena Branca e Xavantinho, por exemplo, que atingiu seu ápice: a simplicidade. Há outros também como o quase desconhecido Elomar que cultiva a erudição da linguagem dos sertanejos, tal qual um Guimarães Rosa, só que nas secas terras nordestinas.

Isso sem falar em Cartola, Noel, Adoniran, Paulo Vanzolini, Ataufo, Herivelton, Lupicínio………………………………………

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Quem entende o presente prevê o futuro

Acompanhando os movimentos que, ao redor do Mundo, protestam contra as condições de vida que o abuso do sistema financeiro está atacando gravemente, não pude deixar de me lembrar de um trecho do livro Pedagogia da Autonomia do educador Paulo Freire.

Neste livro, escrito em 1996, o educador – que constantemente em seus escritos, rebate críticas que sofria por ser “ingênuo” de acreditar na natureza humana – conhecendo o presente e, com base exatamente em suas crenças, faz um diagnóstico que, talvez, esteja se confirmando nos protestos dos povos árabes, do povo espanhol, inglês, estadunidense e tantos outros que tem criticado o sucateamento que o neoliberalismo levou às condições de vida de quem, outrora, tinha boas condições.

Reproduzo o trecho abaixo:

“Espero, convencido de que chegará o tempo em que, passada a estupefação em face da queda do muro de Berlim, o Mundo se refará e recusará a ditadura do mercado, fundada na perversidade de sua ética do lucro.

Não creio que as mulheres e homens do mundo, independentemente até de suas opções políticas, mas sabendo-se e assumindo-se como mulheres e homens, como gente, não aprofundem o que hoje já existe como uma espécie de mal-estar que se generaliza em face da maldade neoliberal. Mal-estar que terminará por consolidar-se numa rebeldia nova em que a palavra crítica, o discurso humanista, o compromisso solidário, a denúncia veemente da negação do homem e da mulher e o anúncio de um mundo ‘gentificado’ serão armas de incalculável alcance.”

(Paulo Freire – Pedagogia da Autonomia – grifo meu)

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A música de hoje e os adultos de amanhã

Artigo publicado no site SigaMpost e no site Economus

Eu preparo uma canção que faça acordar os homens e adormecer as crianças. (trecho de Canção Amiga – Drummond)

A música era considerada um dos maiores instrumentos de educação na Grécia antiga. “Platão e Aristóteles estavam de acordo em que era possível produzir pessoas ‘boas’ mediante um sistema público de educação cujos dois elementos fundamentais eram a ginástica e a música, visando a primeira a disciplina do corpo e a segunda a do espírito”. Para alguns pensadores gregos, uma mudança que ocorresse dentro das formas musicais tidas como ideais poderia impactar em grandes mudanças na ordem do Estado: “Não se pode mudar o que quer que seja nos modos da música”, cita Platão, “sem que também mudem as leis fundamentais do Estado”

Tal era a preocupação dos gregos relacionada à música que, em determinado momento de sua civilização, julgou-se necessário tirar do teatro grego os instrumentos e as músicas relacionadas ao Deus Dioniso (caos) e manter apenas instrumentos e melodias relacionadas ao Deus Apolo (Cosmo).

Diziam: “Me deixem fazer a música de um povo e não me importa quem faça suas leis.”

Para eles, a música poderia ter efeitos terapêuticos e mágicos: Música de notas muito agudas na formação educacional de um líder o levaria à tirania; notas muito graves, poderiam levá-lo à indolência.

Os conceitos gregos foram muito rigidamente seguidos pelo cristianismo da Idade Média, suas teorias harmônicas são encontrados posteriormente em Bach e em muitos outros grandes compositores e, ainda de certa forma, muito de seus pensamentos sobre a música se refletem no pensamento que temos hoje em dia, embora já não damos tamanha relevância a eles.

A sabedoria popular já diz desde sempre que “quem canta seus males espanta”; no filme “Vertigo”, ou “Um corpo que cai” (na tradução para o português) de Hitchcock o médico recomenda ao protagonista que se trate de seu trauma ouvindo Mozart. Estes são somente alguns dos vários exemplos que poderia dar, além do famoso: “essa música está me deixando louco(a)”, típico dos pais ao ouvirem as músicas preferidas de seus filhos.

Por fim, toquei neste assunto, pois ao frequentar festas infantis, sou sobrecarregado pelos “é-o-tchans” e pelos funks cariocas que me deixam ainda mais preocupado quando observo as crianças cantando e dançando as músicas com fidelidade ao que veem, certamente, muitas vezes na TV. Evidentemente que não se trata de criticar os músicos que fazem estas músicas, pois sua obra é fruto da educação a que foram submetidos, mas de se perguntar até que ponto as crianças devem ouvir suas músicas e com que frenquência.

Só a fruição imediata é vivida nelas, o sexo é banalizado ao extremo e notamos o imperativo da alegria. Ao limitar o repertório das crianças a estas músicas, contribuímos para a criação de adultos despreparados para enfrentar a vida real com seus altos e baixos, criamos um contingente de consumidores, precocemente bombardeados pela sexualidade, prontos para consumirem de tudo, até os remédios que vão do tratamento da depressão ao super-heroísmo sexual.

Quando era criança ouvia um LP chamado “A arca de Noé”. Eram composições de Vinícius de Moraes e Toquinho. As canções falavam em desigualdade, em alegrias, no belo, no feio, tinham momentos alegres que alternavam para momentos tristes e uma vasta gama de sentimentos e circunstâncias a que todos estamos sujeitos na vida (fracassos, redenções, etc…). O “Saltimbancos” de Chico Buarque falava de justiça, diferentes visões de mundo e contribuía primorosamente para a musicalização com a linda faixa “Minha canção”.

Evidentemente que em nossa sociedade atual há muitos pilares que definem a formação de nossos cidadãos, o que tira da música o protagonismo que recebia dos gregos, no entanto, havemos de pensar no que nossas crianças ouvem, pois não há item que pode ser desprezado em um processo de educação. Se não cabe aos pais censurar o acesso dos filhos a repertórios como os citados e outros, cabe-lhes, certamente, apresentar alternativas que ampliem o universo musical das crianças.

PS1: Como neste artigo não é possível colocar o devido e desejado aprofundamento das teorias gregas sobre música, fica como recomendação a leitura de “A República” (Platão) onde a maior parte destes conceitos estão presentes.

PS2: Todas as citações deste texto foram tiradas do livro História da Musica Ocidental de Grout e Palisca

 

 

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Comunicação em Debate

Debate entre Paulo Henrique Amorim e Fábio Konder Comparato promove publicação de pesquisa sobre Panorama da Comunicação e das Telecomunicações

Por Thiago Esperandio

Um debate sobre o Panorama da Comunicação e das Telecomunicações no Brasil, realizado no Sindicato dos Jornalistas de São Paulo, nesta terça-feira (11/01), promoveu a publicação de uma pesquisa do IPEA (Institutos de Pesquisa Econômica Aplicadas) sobre este tema. A publicação dividida em três livros faz um balanço histórico da Indústria da Comunicação no Brasil e dos desafios, para esta importante área social, trazidos pelas novas tecnologias, já no presente e também no futuro.
Para saber mais sobre a publicação IPEA e fazer o download da pesquisa, acesse o site do IPEA

Participaram do evento o presidente e o assessor de comunicação do IPEA, Marcio Pochmann e Daniel Castro, além do Presidente do Sindicato dos Jornalistas, José Augusto de Camargo, o jornalista Paulo Henrique Amorim e o professor Fábio Konder Comparato.

Pochmann e Castro

Márcio Pochmann e Daniel Castro chamaram a atenção para a importância desta pesquisa fazendo uma contextualização do panorama atual das comunicações e das telecomunicações no mundo globalizado.
Pochmann ressaltou a mudança socioeconômica pela qual passa o mundo, com a descentralização do poderio econômico, que deixa de ter somente os Estados Unidos como centro dinâmico e passa a contar com a presença de vários atores, entre eles os chamados BRICs (Brasil, Rússia, India e China). Segundo o presidente do IPEA, o Brasil precisa aproveitar esta oportunidade, para isso, é necessário rever a questão das comunicações e das telecomunicações no país.
Márcio Pochmann criticou a ordem econômica mundial a qual acusou de concentrar excessivamente o capital no setor privado. Para ele, essa questão afeta negativamente o acesso e a pluralidade da informação no Brasil e deve ser uma questão discutida no país.
O presidente do IPEA também mencionou importantes mudanças que a tecnologia tem trazido para o nosso cotidiano, entre elas, a mudança da produção do trabalho de artigos materiais para imateriais; o aumento da exploração do trabalho através das novas tecnologias como tablets, smartphones, notebooks e outros que deixam o trabalhador conectado ao trabalho, mesmo além de seu ambiente e de seu horário formal.

PHA

Em seguida, foi a vez de Paulo Henrique Amorim falar. Ele defendeu a aprovação de uma lei que regule os meios de comunicação no Brasil, nos moldes da Ley de Medios recentemente aprovada na Argentina.
Paulo Henrique convocou todos a pressionarem o, recém nomeado, Ministro das Comunicações, Paulo Bernardo, a “não temer a Rede Globo” e fazer uma lei, que, de fato democratize os meios de comunicação.
Em sua fala, o jornalista quis deixar claro que “discutir comunicação não é censurar o PIG”. Em seu site Conversa Afiada, Paulo Henrique Amorim sempre se refere à imprensa tradicional como PIG, sigla que significa Partido da Imprensa Golpista.
Este argumento foi ao encontro da fala do Professor Comparato que “deu uma aula” aos participantes.

PROFESSOR COMPARATO

Em seu primeiro argumento, o professor citou o filósofo Karl Marx, alegando que, todos aqueles que aspiram o poder, falam dos interesses de sua classe, como se fossem interesses de todos.
Com isso, fez uma distinção entre regulação da mídia e cerceamento da liberdade de expressão, argumento usado pelos grandes conglomerados de comunicação no Brasil quando se fala em regular o setor.
Comparato colocou o sistema capitalista como o grande responsável por vários dos desvios encontrados atualmente no uso das comunicações em todo o Mundo. Citou que atualmente a Rede Globo tem 442 empresas em seu poder, criticou esta concentração de capital como sendo maléfica à pluralidade de informação. Afirmou também que, no Brasil, a concentração da comunicação em conglomerados econômicos é ainda maior do que nos Estados Unidos.

Desprivatizar a Comunicação

“É preciso desprivatizar a comunicação Social” disse o professor.
Comparato defendeu que, no futuro, seja criado um marco civil nas comunicações que entregue a imprensa somente para entidades sem fins lucrativos.
O professor lembrou que, de acordo com a constituição brasileira, Rádio e TV devem ser serviços públicos. Embora ambos possam, por lei, ser geridos através de concessões, o professor criticou a exploração exclusivamente comercial que se tem feito por algumas empresas destes meios e defendeu a aplicação de algumas leis que já existem na constituição brasileira:

Aplicação de Leis

Lei que assegura o direito de resposta. Para Comparato, a revogação da lei de imprensa ocorrida recentemente, fragilizou a aplicação deste direito
Lei que permita às pessoas se protegerem de propagandas de produtos nocivos à saúde ou ao meio ambiente. (Recentemente a ANVISA – Agência Nacional de Vigilância Sanitária – venceu uma ação judicial pedindo a proibição de propagandas de produtos com alto teor de açucares, mas, uma liminar revogou temporariamente a vitória judicial)
Lei que proíba os Meios de Comunicação de pertencerem a Monopólios ou Oligopólios comerciais.
Por fim, a garantia da aplicação das leis que exigem aos proprietários de concessões públicas de Rádio e TV que tenham em sua programação, programas predominantemente educativos, culturais, com produções nacionais, regionalizadas, entre outras…
O professor Comparato terminou sua fala clamando: “Viva o povo brasileiro!!”

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