A música de hoje e os adultos de amanhã

Artigo publicado no site SigaMpost e no site Economus

Eu preparo uma canção que faça acordar os homens e adormecer as crianças. (trecho de Canção Amiga – Drummond)

A música era considerada um dos maiores instrumentos de educação na Grécia antiga. “Platão e Aristóteles estavam de acordo em que era possível produzir pessoas ‘boas’ mediante um sistema público de educação cujos dois elementos fundamentais eram a ginástica e a música, visando a primeira a disciplina do corpo e a segunda a do espírito”. Para alguns pensadores gregos, uma mudança que ocorresse dentro das formas musicais tidas como ideais poderia impactar em grandes mudanças na ordem do Estado: “Não se pode mudar o que quer que seja nos modos da música”, cita Platão, “sem que também mudem as leis fundamentais do Estado”

Tal era a preocupação dos gregos relacionada à música que, em determinado momento de sua civilização, julgou-se necessário tirar do teatro grego os instrumentos e as músicas relacionadas ao Deus Dioniso (caos) e manter apenas instrumentos e melodias relacionadas ao Deus Apolo (Cosmo).

Diziam: “Me deixem fazer a música de um povo e não me importa quem faça suas leis.”

Para eles, a música poderia ter efeitos terapêuticos e mágicos: Música de notas muito agudas na formação educacional de um líder o levaria à tirania; notas muito graves, poderiam levá-lo à indolência.

Os conceitos gregos foram muito rigidamente seguidos pelo cristianismo da Idade Média, suas teorias harmônicas são encontrados posteriormente em Bach e em muitos outros grandes compositores e, ainda de certa forma, muito de seus pensamentos sobre a música se refletem no pensamento que temos hoje em dia, embora já não damos tamanha relevância a eles.

A sabedoria popular já diz desde sempre que “quem canta seus males espanta”; no filme “Vertigo”, ou “Um corpo que cai” (na tradução para o português) de Hitchcock o médico recomenda ao protagonista que se trate de seu trauma ouvindo Mozart. Estes são somente alguns dos vários exemplos que poderia dar, além do famoso: “essa música está me deixando louco(a)”, típico dos pais ao ouvirem as músicas preferidas de seus filhos.

Por fim, toquei neste assunto, pois ao frequentar festas infantis, sou sobrecarregado pelos “é-o-tchans” e pelos funks cariocas que me deixam ainda mais preocupado quando observo as crianças cantando e dançando as músicas com fidelidade ao que veem, certamente, muitas vezes na TV. Evidentemente que não se trata de criticar os músicos que fazem estas músicas, pois sua obra é fruto da educação a que foram submetidos, mas de se perguntar até que ponto as crianças devem ouvir suas músicas e com que frenquência.

Só a fruição imediata é vivida nelas, o sexo é banalizado ao extremo e notamos o imperativo da alegria. Ao limitar o repertório das crianças a estas músicas, contribuímos para a criação de adultos despreparados para enfrentar a vida real com seus altos e baixos, criamos um contingente de consumidores, precocemente bombardeados pela sexualidade, prontos para consumirem de tudo, até os remédios que vão do tratamento da depressão ao super-heroísmo sexual.

Quando era criança ouvia um LP chamado “A arca de Noé”. Eram composições de Vinícius de Moraes e Toquinho. As canções falavam em desigualdade, em alegrias, no belo, no feio, tinham momentos alegres que alternavam para momentos tristes e uma vasta gama de sentimentos e circunstâncias a que todos estamos sujeitos na vida (fracassos, redenções, etc…). O “Saltimbancos” de Chico Buarque falava de justiça, diferentes visões de mundo e contribuía primorosamente para a musicalização com a linda faixa “Minha canção”.

Evidentemente que em nossa sociedade atual há muitos pilares que definem a formação de nossos cidadãos, o que tira da música o protagonismo que recebia dos gregos, no entanto, havemos de pensar no que nossas crianças ouvem, pois não há item que pode ser desprezado em um processo de educação. Se não cabe aos pais censurar o acesso dos filhos a repertórios como os citados e outros, cabe-lhes, certamente, apresentar alternativas que ampliem o universo musical das crianças.

PS1: Como neste artigo não é possível colocar o devido e desejado aprofundamento das teorias gregas sobre música, fica como recomendação a leitura de “A República” (Platão) onde a maior parte destes conceitos estão presentes.

PS2: Todas as citações deste texto foram tiradas do livro História da Musica Ocidental de Grout e Palisca

 

 

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