MPB: Música “Poética” Brasileira

Artigo que publiquei no extinto site SigaMPost falando sobre a nossa MPB e a sua relação com a literatura:

Ouvi em algum lugar que o povo brasileiro não lê poesia, mas ouve muita poesia. Consultando a internet para descobrir de quem é a frase não encontrei o autor. Caso venha a encontrar, atualizo este texto.

Independentemente de quem seja o autor, mais importante é notar que se dermos uma rápida passada pela nossa MPB a sentença é comprovada.

Tivemos uma geração de músicas “literatas” principalmente na década de 70.

Drummond foi musicado por Milton Nascimento em Canção Amiga; Fagner musicou Florbela Espanca, Cecília Meireles, Garcia Lorca, entre tantos outros; Caetano musicou a Triste Bahia de Gregório de Matos; os revolucionários Secos & Molhados musicaram Fernando Pessoa, Oswald de Andrade, Vinícius de Moraes e por aí vai… poderíamos citar uma infinidade de casos.

É certo que durante os tempos antigos, a poesia e a música foram praticamente indissociáveis, o que transforma a combinação em algo belo, porém longe de ser inédito. A métrica do verso e a sonoridade eram de fundamental importância para sua memorização e transmissão de seu conteúdo.

A evolução das formas de transmissão escrita como a confecção de livros, a imprensa e outros parecem ter sido os responsáveis pela gradual e progressiva separação entre essas duas formas de arte dando-lhes autonomia em relação uma a outra.

Mas nada inibiu a riqueza desta união que continuou acontecendo e passou a contar com novas possibilidades de encontro entre as duas formas de arte.

Entre elas, os casos em que as letras das músicas conversam com grandes poesias, com textos em prosa e até com personagens da literatura, ou seja, a poesia e as outras formas de texto literário não são musicados diretamente, ocorre uma inter-relação entre as artes.

Nesse quesito, Chico Buarque parece ser o grande especialista. Em sua obra, encontramos a “Beatriz” da Divina Comédia, o Miguilim de Guimarães Rosa, o operário em construção do poema de Vinícius de Moraes e referências a poemas de Fernando Pessoa, entre tantos outros.

Na verdade é difícil pensar em uma característica, em uma qualidade de composição pela qual Chico Buarque não desfila seja nas mais sofisticadas pistas, seja nas mais altas galerias da MPB.

Mas ele não é o único. Nossa música assumiu uma “literariedade” que poucas no mundo têm. Belchior em sua canção Velha Roupa Colorida nos dá um exemplo da “miscigenação” de nossa música. Junta em poucos versos o poeta americano Edgar Allan Poe (referência direta ao poema O Corvo – Raven em inglês), Beatles e Luiz Gonzaga, mostrando a amplitude de suas influências. Vejam:

Como Poe, poeta louco americano,
Eu pergunto ao passarinho: “Blackbird, o que se faz?”
“Raven never raven never raven”
Blackbird me responde
Tudo já ficou pra trás
“Raven never raven never raven”
Assum-preto me responde
O passado nunca mais

Aliás, Assum Preto cantado lindamente por Luiz Gonzaga e citado por Belchior merece uma menção pela riqueza poética. Uma poesia tão linda quanto triste, que, se não tem influência de algum grande texto literário, tornou-se um certamente.

Conta-se que certa vez Tom Jobim pediu umas letras de música ao poeta Carlos Drummond de Andrade e este lhe disse que o maestro soberano não precisava de ninguém para lhe escrever as letras, que ele mesmo as fazia muito bem.

Acredito que o poeta estava certo. Nosso amor pela música fez o poeta Vinícius virar um letrista e fez com que potenciais poetas como Paulo Cesar Pinheiro, Aldir Blanc, Victor Martins, Fernando Brant, Márcio Borges e tantos outros se notabilizassem pelas letras de canções, além de fazer também com que hoje fique difícil distinguir ou marcar uma fronteira certa entre o que é poesia e o que é letra de música, se é que há diferença.

Privilégio dos ouvintes que têm à sua disposição um repertório vasto que vai da erudição literária de Chico Buarque, Gilberto Gil entre tantos outros à erudição de Dorival Caymmi e dos intérpretes Pena Branca e Xavantinho, por exemplo, que atingiu seu ápice: a simplicidade. Há outros também como o quase desconhecido Elomar que cultiva a erudição da linguagem dos sertanejos, tal qual um Guimarães Rosa, só que nas secas terras nordestinas.

Isso sem falar em Cartola, Noel, Adoniran, Paulo Vanzolini, Ataufo, Herivelton, Lupicínio………………………………………

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Uma resposta para MPB: Música “Poética” Brasileira

  1. Suzy disse:

    Artigo excelente! Parabéns!

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