A culpa é da pessoa física

Este texto é motivado por duas provocações recentes feitas a mim e que, infelizmente, são corriqueiras para milhões de outros cidadãos.  Trata-se de um desabafo com “pitadas” de crônica.

Já vou direto ao meu argumento, em seguida, dou dois exemplos para ilustrá-lo.

Discordo completamente do discurso de que as ideologias morreram. Essa é uma conversa bem ideológica, por sinal…

Para mim, o individualismo é a maior das ideologias nos dias atuais, responsável por nosso egoísmo, por um mundo competitivo em que nossos “próximos” se tornam obstáculos para nosso “vencimento individual” e não fontes de compartilhamento, de aprendizado, etc, etc,etc………………..

Mas não é só aí que o individualismo nos pega. Ao nos prometer o “sucesso” individual, ele também nos culpa, individualmente, por “problemas”, e… os dois casos são absolutamente mentirosos.

Em suma, muitas vezes, nossa “crença” no individualismo permite que nos atribuam méritos que não são individuais, como também permite que nos atribuam culpas que também não são individuais.

Essa transferência de culpa nos faz pessoas menos críticas, que enxergam menos as razões reais de nossos problemas, chateações, e por aí vai…

Dito isto, se o leitor não desistiu de ler o texto, vamos aos exemplos:

O primeiro que quero relatar aconteceu em um evento sobre tecnologia  e sustentabilidade chamado WECTI, promovido e muito bem organizado pela UNICID e parceiros.

No primeiro dia deste evento, acompanhei uma palestra de um funcionário da CETESB falando sobre a política de resíduos sólidos da empresa. Não citarei o nome nem o cargo da pessoa, para não cair no erro que estou criticando aqui neste texto: culpar pessoas físicas por erros propositais de pessoas jurídicas.

Em sua fala, o funcionário explicava como a empresa vai se adaptar à lei de resíduos sólidos e o que a empresa faz para tentar ajudar o meio ambiente, diminuir os impactos da presença do homem na natureza, etc…

A todo o momento, os argumentos falavam em conscientizar o cidadão e, normalmente, expressões em tons pejorativos eram ditais, tais como “precisamos colocar na cabeça do sujeito” tal coisa;  “precisamos convencer fulano” daquilo…

Ora, pensei eu, minha mãe e todos os irmãos dela nasceram às margens do Rio Tietê. Há 50 anos atrás, meus tios nadavam no rio.

Com o passar dos anos, inúmeras fábricas passaram a habitar, não por acaso, as margens do rio.

Por mais que os moradores das margens do rio não tivessem consciência ambiental, acho pouco provável que a conversão do Rio Tietê de rio vivo para rio de de água “praticamente sólida”, em menos de meio século, tenha se dado pelas práticas de pessoas físicas…

Até porque, se as casas das pessoas não têm esgotos, saneamento, a culpa não é delas e, sim, dos órgão públicos. Toda aquela sujeira do Tietê não pode ser causada por pessoas passando nas margens do Rio e jogando coisas nele, ainda que, isso não deva ser feito.

Diante deste raciocínio, me pergunto o que a CETESB está fazendo em relação a saneamento básico e na fiscalização de indústrias, etc…

Em tempo: vi em um telejornal que o Governo do Estado estima que só em 2018, a grande São Paulo terá 100% de esgoto tratado antes de ser despejado nos rios. Por que já não tem isso hoje?

Antes de concordar ou discordar comigo, leitor, Deixe-me contar um segundo caso.

Chego de viagem e pego o metrô na estação Tietê. Sigo até a Luz, desço e caminho até o trem da CPTM. Quem conhece a estação Luz, sabe que a caminhada entre metrô e trem não é pequena, ainda mais com malas de viagem e cansado dela.

Ao chegar ao trem, uma placa diz que ele não está circulando entre Luz e Barra Funda devido a obras de melhoria no sistema. Isso já poderia ter sido avisado dentro do metrô, assim eu não teria que descer dele e caminhar tudo que caminhei em vão.

Volto para o metrô, vou até a Sé, para ir até a Barra Funda e pegar o trem lá.

Chegando à Barra Funda, fico uns 30 minutos na plataforma da CPTM e nada de trem. A plataforma está cheia, apesar de ser domingo.

Depois de uns 10 minutos, vem o trem e… de onde ele vem? Da Estação da Luz.

De lá, onde eu estava e fui informado de que o trem não seguiria para a Barra Funda.

Intuindo que aquele trem seria o único em muito tempo, todos os que estão na plataforma fazem um esforço desumano para entrar no trem. O empurra-empurra é sinal de desespero de quem conhece as condições precárias do transporte público.

A porta tenta se fechar antes que todos tenham conseguido entrar. A porta é barrada pelos usuários até que todos estejam no trem.

Ao fechar a porta, o trem sai e a mensagem no auto-falante diz: “não impeçam o fechamento da porta do trem, evitem atrasos

Fácil não?

Há dois modos comuns de as pessoas absorverem essa transferência de culpa.

De um lado ficam aquelas pessoas que batalham para se materem dignamente, manterem suas famílias, educar seus filhos, se educarem e que passam a sentirem, também, o peso de se acharem poluidoras do meio ambiente e destruidoras do transporte público; de outro, aqueles que vestiram a carapuça do super herói que venceu na vida sozinho e que vê nas outras pessoas um obstáculo, um atraso de sua vida, atribuindo a elas os desastres ambientais e a crise no transporte público…

Para mim, insisto, a culpa não é da Pessoa Física e as ideologias não morreram.

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