Poesia Política

Harmonia do Ser-tão

Compasso a passo, ré reina na terra onde o Sol é sempre sustenido, maior do que se pode resistir…

Dó que vem dos outros é em tom menor e não supera a ganância
Dó maior é um breve momento de esperança
De que não há como ir mais para ré .

Lá não o prepara, pois o campo não é harmônico,
Assim como o compor também não o é

Cada um cuida de si como pode, pois este não há como ser maior…
É menor, já que está relativo a ré, à ré…

Nessa terra, todos os sete dias da semana são maiores,
Têm a lida dos compassos lenta,
Mas a sétima não soa suavemente

E as cordas da viola do repentista, que mais parecem arame farpado,
Agonizam com a estiagem da voz.

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“Mudando as Coisas de Lugar”

As rugas na pele, não tão velha.
As mesmas na terra, quase morta.
Ambas castigadas pela falta d’água.
Mentes conformadas por fé penosa.

As rugas na terra, não tão velha
As mesmas na pele, quase morta.
Ambas castigadas por fé penosa.
Mentes conformadas: “É a falta d’água”.

Esperam da morte o começo da vida

As rugas na fé penosa.
A água na terra não tão velha.
As mentes conformadas castigadas.
Mas não mais as mesmas.

Já não esperam mais

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Vêm conduzindo as massas
Vestidos em pele de cordeiro
Garantem que do céu são os herdeiros
E vendem por aí a sua farsa

É como um título de capitalização:
Se sorteados, somos premiados ainda na terra;
É o amor a quem menos erra.
Se não, no céu, nos garante a religião.

Procuremos fora de nós o que está dentro.
Ignoremos nossa natureza humana.
Sigamos alguns mandamentos

Fiquemos longe da grana (que é deles).
Pois é assim que nos leva ao detrimento
Quem, pela falsa moral, clama.

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Fujo cada vez mais de “ismos”,
Sejam eles os anarquistas,
os socialistas,
os liberais,
os queístas que pratico…

Fujo ainda mais desta velha e falsa “idade” religiosa
E da “cracia” em que o povo só está no nome,
Estas me causam azia!!!!

Em todos os casos,
Não consideram “a eterna contradição humana”
De que fala Machado
E representam o nascimento de dogmas,
Instituições, rótulos,
PRECONCEITOS.

Proibidores de qualquer mudança de opinião,
Repressores da natureza humana,
Fortalecidos para corrigir o mal que eles próprios instituem.

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Ódio ao Neoliberalismo

Um brinde à concorrência!!
Se em outros tempos temida,
Sua ocorrência é , hoje, uma benção;

Dela provém nossa liberdade de escolha:
A escolha de em quem devemos acreditar,
A escolha de quem vai nos manipular.

É ela o novo Deus
Que habita os mais lógicos
Discursos tecnocratas.

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Não importa quantos pecados cometeu,
Basta acreditar em Deus.

Nem o quanto se torne cínico,
Basta depositar o dízimo.

Não importa o quanto isso o consome
Basta deixar de ser um homem,

Nem o quanto sua fé seja cega,
Basta que siga algumas regras.

Não importa o quanto isso lhe seja difícil,
Basta esquecer seu livre arbítrio.

Não importa que tenha se casado com a pessoa errada,
A instituição deve ser preservada.

Nem importa que não haja um porquê,
Só se afaste de você.

Se se importa que isso pareça tão normal,
Um simples “de” ameniza um pouco o mal:

Basta de depositar o dízimo!
Basta de deixar de ser um homem!
Basta de seguir algumas regras!
Basta de esquecer seu livre arbítrio!
Basta de preservar a instituição!
Basta de se afastar de você!

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CIÊNCIA EM VERSOS

De todos os seres do reino de Nosso Senhor,
O de maior auto-afirmação é a vaca,
E provo-lho em uma comparação de seu arroto
Com o arroto humano:

O arroto da vaca é autêntico, convicto;
Arroto de comida ruminada,
Diferente do arroto humano:
Este é de comida que, quando colocada na boca,
Já estava praticamente mastigada.

Fomos concebidos com bela imagem,
Porém com precária capacidade de digestão,
Arrotemos como as vacas:
Após minuciosa mastigação.

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Não é preciso todo mundo
Para que se comece a mudar o Mundo
Basta que eu mude       e comigo Ele muda.

Basta que eu fale,
Pois o Mundo não é maior que um bate-papo;
E mesmo que minha fala seja falha, seja fraca
E soe com a intensidade de uma folha ao cair ao chão,
Ela é fruto de intensa idade

É sempre muda,
É às vezes medo,
É nunca moda,

É esperança de que todos que estão mudos
Se transformem no que querem que seja o Mundo

“Nós devemos ser a mudança que desejamos ver no Mundo
(Gandhi)

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Aprender a jogar
É aprender a assistir,
É mais do que competir, resistir,
é existir,
É saber o que expelir,
É agir e, ao mesmo tempo, pensar,
é penar.

É mais do que simplesmente negar

É aprender a ser “eu”
Para aprender a ser “nós”
Senão se é outros,
ou o contrário deles
Senão se é todos,
Se é nenhum,
Se é só mais um.

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Água!! Já diziam os escritos que és a vida
Agora entendo…
Inodora, incolor, insípida…
És o HOJE            Inodora, incolor, insípida…
És a vida e não a esperança de viver
És o amor e não a esperança de amar              Inodora, incolor, insípida…
És a vida!!
Inodora, incolor e insípida.

Feito após a leitura de “A paixão segundo G.H.” (C. Lispector)

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CONTAGEM REGRESSIVA

Mais que de oração,
Precisamos de ação            10
de saber que horas são:                   09
hora da reação à “cordeirização” que nos é   imposta.      08
de pensar em nossa estagnação ignota.       07
de mostrar que não somos idiotas.            06

hora de questionar os pastores do rebanho.     05
de onde lhes vem poder tamanho?        04
de onde lhes vem tanta fartura?            03
onde nasceu tão exposta fratura e a certeza de que o melhor para nós não está em nossa natureza?      02

se o que defendem com fervor
não nos traz somente torpor?     01

É a hora da ignição!!!!

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Bela Lucy
Fez-se luz,
Fez-se a mais bela,
Fez-se justa,
Teve seu nome cantado fervorosamente pelas massas.
Fez-se conhecida internacionalmente:

“Fair Lucy!! Fair Lucy!! Fair Lucy!! Fair Lucy!! Fair Lucy!!

Trouxe-nos a luz, trouxe-nos à luz,
Trouxe-nos o céu com diamantes.
E caiu, c
———–a
————–i
—————–u,    c
————————a
—————————i
—————————–u,  c
———————————-a
————————————i
————————————–u

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Daria minha vida por um verso de onde rebentasse a mais sublime mudança,
De onde brotasse o amor que nenhum ser humano jamais sentiu…

Mas nenhum deles vêm da palavra e além do mais: o que é minha vida?..

Daria a eternidade que me foi vendida por um verso que fermentasse o mais melodioso caos,
Daria todos os versos para estar face a face com ele…

Daria meu primeiro beijo, todas as lágrimas que a música me fez derramar em troca de uma paz que não se baseasse na submissão, na subserviência e sim no mais harmonioso conflito…

Mas como nada do que quero nasce da palavra que digo,
Peço que ao menos me deixem ser triste,
Que me deixem consumir minha dor ou ser consumido por ela;

Pois mergulhando na profundidade da tristeza é que encontrei a felicidade, não, nadando na superficialidade da alegria…

E se mesmo estando com a cara afundada na merda, insisto em abrir minha boca, é para ousar falar, mesmo que ninguém me ouça, já que os ouvidos estão todos entupidos, não para engolir e saciar minha fome de mudanças…

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Contratempos

Que tempo sem valores em que tudo tem um preço…

Que tempo (con)sumido em que tudo vira MERcaDoriA!!!

Que tempo caro em que tudo vira opulência…

Que tempo gritante em que todos estão surdos…

Que tempo ensurdecedor em que todos estão mudos…

Que tempo mudo em que os olhos se calam……………………………………………………………………..

Que tempo luminoso é esse em que todos estão cegos?

Que tempo-espaço onde tudo é vão

Quero o tempo-muda em que o amor não brote só das bocas…………………………………………………………………

Que tempo teatral em que o amor nunca é um ato…………………………………………………..

Que tempo indigesto em que tudo vira MERDA!!!!!

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Dormindo, um pesadelo me disse coisas verdadeiras
Acordado minha cabeça doía
Ouvia o trânsito de minha cama
Me vi perplexo diante do inconciliável que me sondava.
Uma constatação: a arte não vai transformar o Mundo!!!
Resolvi que hoje não mataria nenhum leão.

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JUVENAL CARA-DE-PAU

Meu pré-primário foi em 1983, se não me falha a memória. Confesso que, deste tempo, guardo poucas lembranças, talvez por causa da pouca idade que tinha. Lembro-me por exemplo de que não gostava de ir à escola, e, contraditoriamente, todas as outras poucas lembranças são boas.
Entre elas, lembro-me do meu amigo Juvenal, mais precisamente Juvenal Cara-de-Pau. Garoto muito pobre, cuja  mãe vinha a pé de muito longe todos os dias trazê-lo à escola. Não tinha carro nem dinheiro para pagar as “peruas” que levavam e traziam as crianças da escola. Nem por isso, Juvenal aparentava tristeza, ou qualquer outro sentimento negativo, talvez, também, por causa da pouca idade que tinha.

Aconteceu, que certa vez conversávamos sobre o ano 2000, e com toda a matemática a meu favor disse que teria 23 anos então, e Juvenal indignado me disse:

“Tá louco? O ano 2000 tá muito longe!”.
“Longe?!!!!!!!” – disse eu mais indignado ainda. “Nós estamos em 1983, para 2000, faltam 17.”

Juvenal não hesitou em contar a todos a “bobagem” que eu havia dito, e todos talvez influenciados pela convicção de Juvenal, não hesitaram em concordar com o que ele dizia, talvez por causa da pouca idade que tinham?..
A convicção de Juvenal era fácil de explicar: os japoneses e os americanos, naquela época, nos mostravam como seria o ano 2000… estava o tempo todo na TV. Os carros voariam, os robôs fariam todo o serviço que não gostamos de fazer, trocaríamos o fim-de-semana na praia por um na Lua e o mais incrível: toda a parafernália eletrônica que resolveria nossos males do dia-a-dia, custaria tão barato, que todos poderiam ter.

Realmente era difícil de acreditar que o Mundo mudaria tanto em tão pouco tempo, mesmo com a pouca idade que tínhamos.
Hoje, passado o ano 2000, vejo que as previsões dos japoneses estavam erradas, e quanto ao Juvenal, só tenho certeza de que, se ele estiver vivo, não tem um carro que voa, nem passou o último feriadão na Lua… Só gostaria de poder revê-lo para poder dizer-lhe: “Você estava certo, meu amigo! O ano 2000 está muito longe!”.

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Uma resposta para Poesia Política

  1. ildemiro S. Oliveira disse:

    Cara! Que legal suas poesias! Essa sua tendência em fazer crítica religiosa me faz pensar que você tenha alguma vertente política/religiosa. Estou certo?

    Falemo-nos mais. Temos material que segue essa mesma sua linha de pensamento.

    Sds,

    Miro

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